ABCSindi cumprimenta Manelito Dantas Vilar pelo seu aniversário em 13 de fevereiro.
Para homenagear o criador e estudioso vamos publicar uma entrevista dele concedida ao blog de Muriê Moraes.

O HOMEM

Aos 78 anos, vestindo um pijama branco, Seu Manelito nos recebe na varanda da casa-sede. Rodeado por filhos, filhas e pelos netos Pedro e Chico, ele se mostra uma pessoa solícita e cheia de animação. Pede que a secretaria nos sirva cafezinho, acende um cigarro e começa a prosear. “Essa é a sétima geração da família, sempre fomos muito ligados ao campo, veja eu mesmo sou um engenheiro civil e professor aposentado (ex-catedrático de Hidrologia da Universidade Federal da Paraíba/UFPB), mas há muito tempo venho me dedicando à pecuária”, diz.

Perguntamos que livro lhe marcou e Seu Manoelito não titubeia: “Gosto da Bíblia afinal lá encontramos uma verdadeira crônica da vida de um povo no deserto, penso ver uma analogia ao sofrimento do sertanejo”, afirma. E o melhor filme: “Gosto muito das comédias de Charles Chaplin, mas ele fez também dramas românticos como ‘Luzes da Ribalta’ onde é um palhaço de teatro bastante famoso, mas um bêbado o salva do suicídio e tem também uma jovem dançarina chamada Thereza”, relembra.

E a TV? “Não sou muito de ver, assisto por vez o Jornal Nacional - o verdadeiro mensageiro da má notícia, quando tem uma novela que preste aí eu dou uma chance e assisto”, afirma. E o melhor livro do primo Ariano? “Aprecio muito ‘A Pedra do Reino’, a história é bastante original e é contada pelo personagem Pedro Diniz Ferreira Quaderna - primeiro ele está preso durante o período do Estado Novo (1937-1945), em Taperoá, na Paraíba, e começa a escrever sua história, a partir das memórias de seus ancestrais. Depois aparece como um velho palhaço que conta seu passado num teatro improvisado no centro do vilarejo. No final, enfrenta o juiz corregedor que investiga a morte de seu padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barreto”, explica. Na verdade, para compor a obra, Ariano se baseou nos principais elementos da cultura popular nordestina - a literatura de cordel, os repentes, a embolada – dando assim origem a um universo mítico, criando uma espécie de Reino de Camelot no meio da caatinga.

E o futuro do Nordeste? “Há 200 anos se discute projetos de irrigação para o Nordeste brasileiro, com gastos e estudos mirabolantes que nunca saíram do papel e quando saíram os resultados foram desastrosos; por isso, acredito que a Transposição do Rio São Francisco não dará certo, porque a interligação de bacias é uma técnica que precisa de muitos estudos para evitar a contaminação e salinização do solo. A solução está no desenvolvimento da técnica de se criar animais resistentes à seca e a introdução e cultivo de plantas adaptadas ao Semi-Árido”, argumenta.

E a família? “Tenho cinco filhos, todos envolvidos com as fazendas; os dez netos são uma alegria, ei neto não é melhor que filho?”, indaga. O neto Chico, de 3 anos, é o xodó. “Eu pergunto: cadê o dedo de vovô e ele levanta o polegar; depois pergunto pelo dedo do irmão dele e Chico aponta o ‘dedo médio’ - típico de ofensa”, conta rindo.

E os estrangeirismos? “No Brasil as pessoas têm mania de inglesar ou afrancesar tudo; você mesmo tem seu site que se pronuncia “saite”, na minha fazenda, eu não permito imitar receitas dos franceses”, garante. A frase foi dita após o repórter dizer que era responsável por um site de Arcoverde. “Sim, Arcoverde a velha Rio Branco”, comenta Manelito.

E a juventude: “Rapaz mesmo com todo esse mato em volta eu nunca fui de caçar, tenho adoração pelos animais; já meu irmão Roberto Dantas era o maior atirador de baleadeira que já vi, falo desse tipo de caça, era um tipo de atiradeira usada para disparo de projéteis impulsionado pelas mãos com auxílio de elásticos. Outro irmão - Marcelo Dantas - apreciava as brincadeiras, depois se transformou em economista que muita gente acha ser sinônimo de mentiroso”, comentou em tom de brincadeira.

E o convívio com os pássaros? “Olha fico algumas horas aqui na varanda e noto que os passarinhos têm uma espécie de código de comunicação, quando as visitas rareiam eles passam meio tímidos, depois quando sentem a presença dos da casa ficam numa algazarra danada, essas criaturinhas são muito sabidas”, argumenta ao ver além do terraço sabiás, sanhaçus, golinhas, galos de campina, azulões etc.

Ao final da conversa, Manelito me olha e diz: “Você foi um dos poucos jornalistas que veio aqui e não centrou o papo em Ariano, deixou que eu falasse outros temas”.

Eu cá com meus botões não sei se foi um elogio, mas vindo de Seu Manoelito tenho minhas ressalvas em não me gabar. Afinal, o primo de Ariano prefere acreditar que jornalista é um tipo adepto do óbvio ou que não passa de “arauto da chatice”.
Enfim, só posso dizer - muito obrigado Seu Manelito!!!


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